“Me dê essa lista quilométrica, esfregue a lâmpada e verá quem sou”

Entrevista e Texto de Isadora Praça Rodrigues

Robin Williams (1951-2014) deu voz e vida ao Gênio em Aladdin (1992) e pra falar a verdade, sem ele o protagonista não teria conseguido nada. Segundo a lenda, gênios são aprisionados em suas lâmpadas quando cometem algum pecado contra a fé religiosa, não são tão bons quanto parecem e só conseguem se libertar se um de seus amos conceder liberdade a eles.

Realizar todos os desejos e sonhos não é uma coisa de outro mundo. Com 22 anos, recém completados, Manu começou uma vida nova como a Gênia de Aladdin, que estreia dia 09 de dezembro na Braapa Escola de Atores. De Manaus para São Paulo, com o intuito de “montar” o seu corpo, pensou em colocar silicone nos seios, mas como precisaria de repouso após a cirurgia, engavetou a ideia naquele momento.

Uma vez quando faltou a aula de teatro, sua turma decidiu plantar a primeira semente e começou a desenhar a apresentação do espetáculo. Seus colegas se questionaram qual papel ela faria, mas o diretor logo definiu: Manu será o Gênio. Todos na sala adoraram, mas tive que questioná-la: “Você gostou?”, perguntei curiosa. “Amei, amei, o gênio que dá todas as direções, o Aladdin não seria nada sem o Gênio, É o Gênio que transforma ele em príncipe para poder cortejar a Jasmine”.

Mostrou-me a mão esquerda machucada enquanto ensaiava para o espetáculo. O intérprete de Alladin é um pouco mais alto que ela. A Gênia foi a única que saiu machucada dos ensaios, porque teve que socar a boca dele e acabou se cortando. Quando olhou para sua mão, viu sangue para todos os lados.

O teatro entrou em sua vida quando tinha apenas 13 anos de idade e nunca mais saiu. Criou sua própria companhia de teatro infantil em Manaus e percebeu que a vida não poderia estar melhor. Mas as tais algemas do Gênio ainda a prendiam, algo estava errado.  “Eu sempre fui muito, muito livre, sabe? Tive meu emprego cedo, consegui minhas coisas rapidamente…”

Chegando em São Paulo, dividiu um quarto e hotel com uma amiga, até arrumar um lugar fixo. Mas algumas brigas aconteceram e no final, dividir roupas e maquiagens não deram tão certo. Hoje, a amizade continua e já existem planos de se jogar nas redes para virar youtuber. Mudou-se para o bairro a Mooca em São Paulo e em seguida, para um pensionato na Vila Nova Conceição.

Essa conversa começou na rua até chegar num bar. Com uma regata mostarda, uma legging branca e preta, e de sandálias vermelhas, a Gênia pediu um maço de cigarros e começou a contar sobre sua vida. A vinda para São Paulo trouxe muitas coisas boas, entre elas, o noivo. Conheceu assim que chegou e precisou de apenas um mês para que começassem a namorar. O rapaz quer um casamento já no próximo ano. Geralmente é a mulher que tem mais pressa. É clichê, mas crescemos ouvindo isso. Fim dos privilégios de solteiro, segundo ela, mas a animação para o casamento é maior.

Nunca imaginou conhecer seu futuro marido por uma amiga em comum. “Eu não sou a amiga ‘fura olho, tá?!’”, me disse rindo. O rapaz tinha ido levar um remédio e se interessou por ela. Pediu o número de telefone, mas ela questionou se ele tinha alguma coisa com a amiga. Ele negou. “Chegando no hotel, corri e contei a ela. Estamos saindo até hoje.”

Na infância, seu filme favorito era A Pequena Sereia (1989), porque Ariel queria ser humana e a garota queria ser algo que não sabia o que era. Se a peça fosse sobre uma sereia, que personagem você seria? A resposta veio na ponta da língua: “Úrsula”. A seguir, veio uma palinha da música Corações Infelizes: “Eu confesso que já fui muito malvada.”

Criada somente pela mãe com dois irmãos, enfrentaram situações diversas. Sem tantos luxos na infância, dedicou-se primeiro aos estudos e só depois aos assuntos pessoais. Ficou famosa em sua cidade, fazia apresentações para o prefeito e para celebridades.

Adorou-se descobrir mulher. Se as curvas estiverem mais aparentes, melhor ainda, porque chama a atenção dos homens, Às vezes eles a confundem com uma garota de programa, que não poderia ter uma vida “certinha”, com um trabalho comum, principalmente sendo bonita.

Quando perguntei sobre sua relação com seu corpo antes do silicone industrial, sua voz falhou duas vezes. O choro estava prestes a se formar e não conseguia mais olhar diretamente para mim. “Eu não me via”. Aos 20 anos, ela não aceitou mais ser aquela mulher que todos falavam: uma aberração. Uma mulher só para transar. Ali, nascia Manu Rodrigues.

Colocou um mega hair e seu irmão de 11 anos, disparou: “Nossa, agora eu tô vendo você”. Sentiu-se aceita como é pela família. Mas o medo ainda rondava a sua cabeça.

“Manu, o que é ser bonita para você?” Ela me respondeu: “É ser você, gostar de si, querer sempre melhorar”. Isso me lembra muito a cisheteronormatividade , uma busca permanente do estar bonita, mostrar-se bonita sempre. “E quando você não se sente bonita?”, perguntei “Quando me sinto assim, prefiro dormir o dia inteiro e acordar só no próximo (RISOS).”

Manu também tem suas regras de beleza: laser, intervenções, cremes, esfoliação, limpeza todos os meses com datas definidas. Pensei muito sobre isso e descobri que não há certo e errado, afinal temos que nos amar e nos cuidar. O que me preocupa não é o caso da Manu, mas outras meninas que precisam de todo um ritual para sentir-se bem consigo mesmas. A Gênia mudou o que tinha que mudar.

Vi suas fotos antigas e questionei como ela se sentia com essas recordações, “Eu não penso em apagar”, foi a primeira frase que disparou. Mas a pergunta era mesmo em relação aos seus sentimentos. “Me sinto uma borboleta”. Manu não quer parar aí. Pensa em fazer botox, fios de ouro, aumentar um pouco mais a boca, lipoaspiração, academia, tratamento para tirar todas as manchas do corpo, colocar próteses nos dentes e afinar um pouco o nariz.

No final desta conversa, voltei ao tema do teatro, Manu disse que adora dar palpite em tudo e precisa se destacar entre as mulheres e homens “normais”. Precisa saber um pouco mais do que eles, pois será cobrada pelos diretores. Mas você não se sente uma mulher “normal”? Manu me explicou que no ramo de teatro infantil, alguns pais e mães podem não contratá-la por medo de “induzir seus filhos a algo”.

O ano de 2017 foi marcado pela censura nas artes. A peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” foi banida em muitos teatros no Brasil. Tudo porque Jesus foi interpretado por uma atriz transexual, Renata Carvalho. Tal cenário provocou reflexões em torno da questão de gênero. Lembro quando assisti à peça no Sesc Santos. Conversamos com um segurança do local e ele nos contou que em uma das apresentações, parte da plateia foi embora no meio do espetáculo. Talvez não entenderam do que a peça se tratava.

Há poucos dias, a filósofa Judith Butler, de 61 anos, visitou o Brasil para apresentar seu livro sobre posições filosóficas judaicas e articular uma crítica do sionismo político. Por ser uma grande pensadora da teoria queer, Judith foi agredida verbalmente e fisicamente quando deixava o país por uma mulher que carregava um cartaz de madeira no aeroporto. Antes de sua vinda, protestos contra e a favor rodeavam a frente do Sesc Pompéia, onde apresentou seu livro. “A postura de ódio e censura é baseada em medo, medo de mudança, medo de deixar os outros viverem de uma maneira diferente da sua”, fala da própria Judith.

Manu não se coloca na posição de uma mulher “normal” porque ninguém visualiza a Manu por inteiro, somente um lado seu. Com isso, me peguei a pensar sobre o que de fato é ser uma mulher normal. Primeiro pelos aspectos físicos que todos nós criamos e a sua ligação com a cisheteronormatividade. Em seguida, estão os aspectos psicológicos que “todas as mulheres têm” em fazer cirurgias para se sentirem cada vez mais próximas do padrão que a sociedade impõe.

Toda vez que afirmo que uma mulher é “normal”, afirmo também que existe a “anormal”. Ser normal na sociedade é ser aceito por ela, mas existem outras formas de existir. Precisamos reconhecer isso de verdade.